Queridos filhos e filhas, na Liturgia da Palavra iniciamos, de fato, nosso caminho dentro do mistério sagrado. Ela é a segunda grande porta que nos prepara para a Sagrada Eucaristia. Desde o momento em que nos reunimos, a Igreja nos ensina que a preparação para celebrar o Santo dos Santos começa já na escuta da Palavra.
A Palavra de Deus nos abre o coração, nos dispõe interiormente e nos conduz para aquilo que é, verdadeiramente, a Eucaristia. Por isso, escutar a Palavra na Liturgia é algo muito especial. E como é bom contar com proclamadores como vocês, que a anunciam com nitidez, clareza, beleza e reverência. Muito obrigado pelo serviço na Liturgia da Palavra, essa missão tão nobre de proclamar a Palavra de Deus.
Percebemos que vocês assumem esse ministério com seriedade: escutamos a Palavra e conseguimos, de fato, entrar na liturgia. E essa liturgia, como nos recorda o texto de hoje, é uma liturgia que nos faz família.
“O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz.”
Jesus é essa luz. Ele caminha conosco, nos dá vida e nos constitui como família.
No centro da liturgia de hoje está o chamado de Jesus: “Segue-me.”
Segue-me para quê? Para formar uma família. Somos chamados a ser família.
No contexto do povo de Israel, apenas o judeu era considerado família de Deus. O estrangeiro poderia até se converter, poderia ser um agregado, um servo, mas jamais seria considerado parte da família. A família de Deus era o povo judeu, por raça e por sangue.
E é justamente por isso que o Evangelho destaca que Jesus vai à Galileia dos pagãos. Ele procura aqueles que estavam fora, os que não pertenciam, a grande multidão que Ele quer acolher, abraçar e chamar para perto de Deus. Jesus vem para nos dizer: segue-me, para seres família.
Ser família é experimentar a graça que o próprio Jesus revela quando diz:
“Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?”
Todos aqueles que fazem a vontade de Deus.
E somos ainda mais do que família espiritual: somos família de sangue. A cada Eucaristia que celebramos, comungamos o Corpo e o Sangue do Senhor. Tornamo-nos, assim, mais família pelo Sangue de Cristo do que até mesmo pela nossa própria carne. Somos a família do Sangue de Cristo.
Hoje, infelizmente, a palavra “família” parece, muitas vezes, fora de moda. Facilmente nos perdemos, nos distanciamos. Vemos dores, sofrimentos, dificuldades conjugais, conflitos entre irmãos. Não cabe aqui julgar, mas é inegável que, muitas vezes, é mais fácil terminar no conflito, no distanciamento ou até na delegacia, do que terminar na oração, no pedido de perdão.
O chamado de hoje é claro: seguir Jesus é assumir-se como família.
Família se importa, cuida, luta, permanece unida.
Nós, como comunidade cristã, precisamos nos educar para isso, ajudar-nos mutuamente, aprender a viver como família. A Igreja, por ser uma Igreja de multidões, enfrenta o desafio de formar verdadeiros laços comunitários. Muitos passam pelo santuário, celebram a Eucaristia, mas não criam vínculos, não se envolvem, não se sentem parte.
Corremos o risco de viver a Eucaristia como algo individual: “eu celebro, eu me encontro com Jesus, e pronto”. E assim perdemos a capacidade de sermos família na Igreja e, muitas vezes, também dentro de nossas casas.
A liturgia de hoje nos recorda que a vivência eclesial só tem um caminho: ou vivemos como família, ou não viveremos verdadeiramente em Cristo.
Jesus não evangelizou sozinho. Ele formou uma família. E até no alto da cruz reafirmou isso, quando disse a Maria e a João:
“Mulher, eis o teu filho. Filho, eis a tua mãe.”
Queridos filhos e filhas, mais uma vez o Evangelho nos convida: “Vem e segue-me.”
Jesus, por meio dessa Palavra, formou uma família. Por isso, cuidem da sua família. Se sua família é esta comunidade, se sua família é este santuário, cuidem dela. Abracem sua família, comprometam-se com ela, importem-se uns com os outros.
Não busquemos dividir-nos em “famílias” diferentes, mas recordemos: temos uma só família, e ela está em Cristo Jesus.
Não nos separemos, não nos dividamos jamais.
Que possamos responder ao chamado de Jesus: vem e segue-me, e assim permitir que Ele continue a constituir, entre nós, essa grande família, como graça e dom de Deus.
Pe. Francisco Júnior, sss
(Homilia do 3º Domimgo do Tempo Comum – 25/01/26)